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Garimpo ilegal na T.I. Munduruku: Estudo expõe impactos e como atividade ilegal persiste, mesmo após ações federais no Pará

Área de garimpo ilegal dentro da Terra Indígenas (TI) Munduruku, no Pará. Reprodução / Polícia Federal O garimpo ilegal na Terra Indígena Munduruku, no P...

Garimpo ilegal na T.I. Munduruku: Estudo expõe impactos e como atividade ilegal persiste, mesmo após ações federais no Pará
Garimpo ilegal na T.I. Munduruku: Estudo expõe impactos e como atividade ilegal persiste, mesmo após ações federais no Pará (Foto: Reprodução)

Área de garimpo ilegal dentro da Terra Indígenas (TI) Munduruku, no Pará. Reprodução / Polícia Federal O garimpo ilegal na Terra Indígena Munduruku, no Pará, persiste e tem alta capacidade de adaptação, mesmo diante de ações repressivas do Estado, como as desintrusões. É o que aponta um estudo apresentado na noite desta segunda-feira (11) por um grupo de pesquisadores da Universidade do Estado do Pará (Uepa) e do Instituto Mãe Crioula. Foram analisadas as transformações socioambientais e econômicas ocorridas em 2025 após as operações de desintrusão na Terra Indígena Munduruku, em Jacareacanga, no sudoeste do Pará. As operações de órgãos federais para retirar os invasores começaram ainda em 2024. A TI Munduruku foi homologada em 2004 em área de 2,3 mil hectares, abrigando três povos indígenas em Jacareacanga e Itaituba. Conforme os especialistas, a retirada de garimpeiros desencadeou uma série de novas dinâmicas e expões vulnerabilidades, pois não desestruturou as bases econômicas do garimpo ilegal e nem pôs fim a conflitos na região. "As ações recentes de desintrusão representam avanço importante no reconhecimento e na garantia dos direitos territoriais ao sinalizarem uma retomada da presença estatal em áreas historicamente marcadas pela ausência ou fragilidade institucional. No entanto, tais ações não são suficientes para resolver, de forma estrutural, as dinâmicas que sustentam o garimpo ilegal", afirma o documento. Segundo o estudo, sem ações estruturais, as operações estatais produzem efeitos temporários, com possibilidade de retorno dos garimpeiros. De acordo com o Instituto Mãe Crioula, o documento chamado de "O Circuito Espacial do Garimpo Ilegal no Pós-Desintrusão: Reconfigurações Territoriais e Conflitos na Terra Indígena Munduruku" será encaminhado a órgãos públicos com sugestões. Clique e siga o canal do g1 Pará no WhatsApp Reveja: Governo Federal fez balanço no fim de 2024 sobre a retirada de invasores durante operação na TI Munduruku O peso da 'mínero-dependência' Além do impacto ambiental negativo da atividade garimpeira ilegal, a pesquisa aponta também impactos sociais e econômicos preocupantes, pois o garimpo ilegal se sustenta por meio de um circuito econômico que inclui outras atividades, como comércios, postos de combustíveis e serviços em geral tanto em Jacareacanga, quanto em Itaituba. "Para muitos moradores, são as atividades garimpeiras que mantêm a dinâmica econômica local. O fluxo migratório associado ao garimpo movimenta o setor hoteleiro, restaurantes e outros estabelecimentos comerciais, estruturando parte significativa da vida urbana", exemplifica o estudo. Essa dinâmica gera uma "mínero-dependência", modelo em que a economia local passa a girar em torno da extração ilegal. Com a saída dos garimpeiros, moradores e comerciantes relataram uma redução significativa no movimento econômico, o que para os pesquisadores, evidencia a fragilidade de economias pouco diversificadas. Além disso, os pesquisadores também apontam o aumento de famílias com Cadastro Único como um fator a ser observado e que alcançou 19.353 em 2026 na cidade de Jacareacanga. A cidade, segundo o último Censo, tem 24 mil habitantes, na qual metade é indígena. "A expansão do Cadastro Único ao longo do tempo não apenas revela o aprofundamento das vulnerabilidades sociais, mas também dialoga diretamente com a discussão sobre a minero-dependência, ao expor os limites estruturais da economia local e a dificuldade de construção de alternativas econômicas mais diversificadas e sustentáveis", diz o estudo. Danos ambientais em terras Munduruku Jacareacanga Circuito Espacial do Garimpo Ilegal no Pós-Desintrusão/Reprodução Segundo o relatório, os garimpos ilegais aumentaram dentro da terra indígena entre 2017 e 2020. Depois, entre 2021 e 2022, começaram a ter mais operações de combate a esta atividade, com destruição de maquinários. Em 2023, há um reforço de combate ao garimpo ilegal com ações federais até que em 2024 inicia a desintrusão para retirada dos garimpeiros ilegais. Os pesquisadores apontam que, além dos impactos sociais e econônimos, a atividade garimpeira provocou modificações na dinâmica dos rios, incluindo mudanças no leito, assoreamento e alterações na qualidade da água. Esses impactos afetam o modo de vida das populações que dependem dos rios e tendem a persistir mesmo após a interrupção do garimpo ilegal. No entanto, esse combate se deu em alguns pontos, pois a ilegalidade continua. "O garimpo ilegal não apenas persiste, mas se reconfigura territorialmente, aprofundando as pressões socioambientais e os conflitos sobre o território Munduruku", aponta o relatório. Balsa com bomba para dragagem de sedimento utilizada por garimpeiros no Rio Pacu, nas proximidades da Currutela Jacareacanga em 2025 Acervo do Instituto Mãe Crioula (2025) Segundo Aiala Couto, geógrafo e pesquisador da Uepa e IMC e um dos coordenadores da pesquisa, a dinâmica complexa do garimpo ilegal na região inclui espaços menores de exploração e também a aproximação com o narcotráfico, incluindo o compartilhamento de aeroportos e portos ilegais. "O garimpo continua articulando com aerodromos clandestinos, postos...Só que tem uma migração de garimpos gigantes para micro garimpos que continuam poluindo", explica. Os pesquisadores também acreditam que a presença de garimpos nos municípios vizinhos na região (Itaituba, Trairão, Altamira e Novo Progresso) "reforça a ideia de uma rede regional articulada, na qual Jacareacanga se consolida como ponto estratégico nos circuitos espaciais do ouro, integrando frentes de extração, logística e fluxos econômicos que extrapolam os limites municipais e intensificam os conflitos socioambientais na T.I. Munduruku". Mais presença do Estado A análise recomenda o fortalecimento e presença contínua do Estado para evitar a reocupação das áreas onde houve desintrusão e garantir a preservação ambiental. Essas ações podem ser com "fiscalização contínua, controle das cadeias econômicas, proteção dos territórios indígenas e construção de alternativas econômicas sustentáveis para a região", consta "Tais demandas [do relatório] apontam para a urgência de políticas públicas integradas, que considerem as especificidades territoriais e sejam construídas em diálogo direto com as comunidades", considera a pesquisa. O estudo ainda destaca a importância do protagonismo indígena na construção de alternativas econômicas que reduzam a dependência do garimpo, como explica Carolina Furtado, pesquisadora do Instituto. "Não é só desintrusão. Os indígenas precisam de outras questões muito pautadas no que fazer onde antes tinha garimpo ilegal", detalha a pesquisadora. O estudo ressalta ainda que a articulação entre governos e a incorporação de conhecimentos tradicionais são fundamentais para a construção de soluções duradouras na região e sistematiza as demandas dos povos Munduruku, que abrangem áreas como educação, segurança alimentar e meio ambiente. "Emergem demandas voltadas ao fortalecimento de atividades já desenvolvidas pelos indígenas, mas que ainda carecem de apoio institucional e maior alcance no território como construção de aviários, implementação de projetos de reflorestamento, melhoria dos sistemas de abastecimento de água e incentivo à produção e comercialização do artesanato", consta no levantamento. O g1 procurou os órgãos federais envolvidos na desintrusão de 2024 e 2025 e pediu posicionamento sobre o relatório da Uepa e Instituto Mãe Crioula e também atualização das ações pós-desintrusão e aguarda retorno. MAIS VÍDEOS com informações sobre o Pará: Veja outras notícias do estado no g1 Pará

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